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Pesquisa amostral

Relatório da Pesquisa Amostral — Mulheres no Município do Guarujá

1.003 mulheres entrevistadas, a partir de 18 anos

Fonte
Grupo de Trabalho PMPM Guarujá — Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania
Abrangência
Município de Guarujá/SP
Período
2025
Situação da base
Publicado

1. Introdução

A ausência de dados específicos sobre a realidade das mulheres no município do Guarujá representa um desafio significativo para a formulação e execução de políticas públicas eficazes, interseccionais e comprometidas com a equidade de gênero. Diante desse cenário, foi desenvolvida uma pesquisa amostral com 1.003 mulheres residentes no município, com idades a partir de 18 anos, com o objetivo de identificar demandas prioritárias, mapear vulnerabilidades sociais e propor caminhos concretos para o fortalecimento das políticas públicas voltadas às mulheres.

Esta iniciativa surge da necessidade de tornar visíveis as múltiplas faces das desigualdades enfrentadas pelas mulheres do Guarujá, abrangendo aspectos como acesso à saúde, trabalho, renda, mobilidade, violência e percepção de segurança. A pesquisa busca não apenas retratar estatisticamente a situação atual, mas oferecer uma base sólida para ações transformadoras, conectadas com os princípios dos direitos humanos e da justiça de gênero.

2. Metodologia

A coleta de dados foi realizada de forma híbrida — online, por meio de formulário eletrônico, e presencialmente em pontos estratégicos do município. O método amostral visou abranger a diversidade do território, incluindo bairros de diferentes perfis socioeconômicos. As 1.003 participantes responderam a um questionário estruturado com perguntas fechadas e abertas, garantindo tanto a objetividade estatística quanto a coleta de percepções subjetivas e vivências.

A análise foi realizada por meio de leitura estatística das frequências absolutas e relativas, cruzamento de variáveis relevantes e interpretação qualitativa das respostas abertas.

3. Perfil sociodemográfico

A faixa etária mais representativa da amostra concentra-se entre 40 e 60 anos (47,5%), seguida pelas mulheres de 30 a 40 anos (19,2%). A pesquisa contemplou majoritariamente mulheres em idade economicamente ativa, o que é relevante para os temas de trabalho, renda e cuidado com filhos.

Em termos de escolaridade, 58,5% das entrevistadas completaram o ensino médio ou estão cursando o ensino superior. Notavelmente, 7,6% não completaram o ensino fundamental e 6,8% não completaram o ensino médio, o que evidencia a persistência de um recorte educacional desigual no município.

Idade das respondentes (1.003 respostas)
Faixa etária%
Entre 18 e 21 anos17,8%
Entre 21 e 30 anos11,6%
Entre 30 e 40 anos19,2%
Entre 40 e 50 anos23,9%
Entre 50 e 60 anos23,6%
Acima de 60 anos3,9%

3.1 Cobertura territorial

Foram aplicados questionários tanto em regiões centrais quanto em áreas periféricas, buscando captar a pluralidade de experiências vividas pelas mulheres guarujaenses. Entre os bairros alcançados destacam-se:

  • Balneário Guarujá
  • Jardim Astúrias
  • Balneário Mar Casado
  • Vila Alice
  • Cachoeira
  • Balneário Praia do Pernambuco
  • Complexo Industrial Naval de Guarujá
  • Vila Júlia
  • Santa Rosa
  • Perequê
  • Morrinhos
  • Prainha Branca

3.2 Cor/raça

52,9% das mulheres entrevistadas se autodeclararam negras ou pardas, o que revela a predominância de mulheres negras no território e destaca a urgência de políticas públicas com recorte racial. Este dado reforça a importância de incluir o recorte racial na formulação das políticas públicas, promovendo equidade e combate ao racismo institucional.

Cor/raça autodeclarada (1.003 respostas)
Cor/raça%
Parda46,8%
Branca36,4%
Negra16,5%
Indígena0%
Amarela0%

3.3 Composição familiar — quantidade de filhos

27,1% das entrevistadas possuem um filho, 28,3% têm dois e 12,7% têm três — juntas, 68,1% da amostra. Outras 23,8% declararam não ter filhos. Mulheres com maior número de filhos podem enfrentar mais dificuldades para acessar o mercado de trabalho, concluir a formação educacional ou buscar atendimento de saúde, o que reforça a necessidade de políticas de cuidado.

Quantidade de filhos (1.003 respostas)
FilhosRespostas%
023923,8%
127227,1%
228428,3%
312712,7%
4464,6%
5151,5%
6101,0%
760,6%
8 ou mais40,4%

4. Trabalho e renda

A análise da situação profissional revela uma realidade de instabilidade laboral: 33,8% das mulheres estão desempregadas. A precariedade nas relações de trabalho afeta diretamente o acesso a direitos sociais, à saúde, à moradia e à educação.

Situação de trabalho/emprego (1.003 respostas)
Situação%
Desempregada33,8%
Funcionária pública19,3%
Aposentada16,8%
Empreendedora/empresária (com CNPJ)16,5%
Estudante15,0%
Trabalho informal ou autônomo11,5%
Trabalho formal (CLT)9,6%
Renda familiar (1.003 respostas)
Faixa de renda%
Abaixo de 1 salário mínimo14,4%
Entre 1 e 2 salários mínimos15,0%
Entre 2 e 3 salários mínimos15,5%
Entre 3 e 4 salários mínimos12,9%
Entre 4 e 6 salários mínimos16,8%
Acima de 6 salários mínimos25,5%

Esse cenário aponta para a importância de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva feminina, com incentivo ao empreendedorismo sustentável, capacitação profissional e formalização do trabalho autônomo.

5. Saúde da mulher

Mais da metade das entrevistadas (55,1%) utiliza o SUS como forma de acesso à saúde, enquanto 43,7% afirmam ter convênio. Entretanto, 38,9% relatam dificuldade para marcar consultas pelo SUS.

Facilidade para marcar consultas no SUS em Guarujá (1.003 respostas)
Resposta%
Não, tenho dificuldade para conseguir38,9%
Sim, consigo com facilidade25,7%
Sim, mas demora muito tempo16,2%
Nunca tentei marcar pelo SUS15,0%
Realização de exames preventivos (1.003 respostas)
Resposta%
Sim, mas demora muito para conseguir marcar47,1%
Sim, sem dificuldades32,9%
Não, porque não consigo agendamento13,4%

Observou-se que 60,5% possuem dificuldade em realizar exames preventivos regularmente. Quanto ao atendimento psicológico pelo SUS, 72% relataram demora e 13,6% não conseguiram acesso mesmo após tentativa, evidenciando déficit grave na oferta de serviços de saúde mental.

5.1 Conhecimento sobre os serviços de saúde para mulheres

Conhecimento dos serviços de saúde voltados às mulheres (1.003 respostas)
Resposta%
Não, tenho pouca informação sobre isso44,1%
Sim, mas não sei como acessar todos eles21,2%
Não sei quais serviços existem para mulheres17,7%
Sim, conheço bem os serviços disponíveis16,9%

Esses números indicam falha na comunicação institucional e na difusão de informações, afetando sobretudo as mulheres em maior vulnerabilidade social, com baixa escolaridade ou sem acesso contínuo à internet.

6. Violência de gênero e segurança

30,2% das mulheres afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência e 66,8% relataram nunca ter sofrido. Entre os tipos mais comuns destacam-se a violência psicológica (25,4%), física (14,5%) e moral (11,5%).

Tipo de violência sofrida (1.003 respostas, múltipla escolha)
TipoRespostas%
Psicológica (ameaças, humilhação, manipulação)25525,4%
Física (agressões, empurrões, socos)14514,5%
Moral (difamação, calúnia, injúria)11511,5%
Sexual (estupro, assédio, coerção sexual)989,8%
Patrimonial (destruição de bens, controle financeiro)616,1%
Não se aplica63663,4%

6.1 Percepção de segurança no bairro

70,6% das mulheres evitam sair sozinhas à noite ou já foram abordadas ou ameaçadas nas ruas — um medo constante que limita a liberdade de ir e vir e interfere no acesso à educação, ao lazer, ao trabalho e à participação social.

Sente-se segura andando sozinha à noite no bairro? (1.003 respostas)
Resposta%
Não, já fui abordada ou ameaçada na rua58,2%
Não, evito sair sozinha à noite20,8%
Depende do local e do horário12,4%
Sim, me sinto segura8,6%

6.2 Conhecimento da Lei Maria da Penha

Conhecimento da Lei Maria da Penha (1.003 respostas)
Resposta%
Sim, mas tenho poucas informações45,0%
Sim, conheço bem a lei e seus mecanismos42,4%
Não conheço essa lei10,1%

O dado demonstra a necessidade de campanhas educativas contínuas e acessíveis, especialmente nos bairros mais vulneráveis, escolas, igrejas e unidades de saúde.

6.3 Percepção comunitária da violência

64,6% das entrevistadas afirmaram conhecer ao menos uma mulher que já sofreu violência ou foi vítima de feminicídio, o que reforça a dimensão coletiva do problema.

Conhece alguma mulher que sofreu violência ou foi vítima de feminicídio? (1.003 respostas)
Resposta%
Não conheço nenhum caso35,4%
Sim, mas apenas por notícias ou redes sociais25,6%
Sim, uma pessoa próxima (familiar, amiga, vizinha)23,0%
Sim, conheço casos na minha comunidade16,0%

6.4 Busca por ajuda após situações de violência

Se já sofreu violência, buscou ajuda? (1.003 respostas)
Resposta%
Não, por medo de represálias70,4%
Sim, mas não tive o suporte adequado8,8%
Sim, fiz denúncia e recebi o apoio necessário8,0%

Esse silêncio não é fruto da omissão, mas da insegurança institucional, da ausência de redes efetivas de proteção e da perpetuação de uma cultura que responsabiliza a vítima. É urgente fortalecer os canais de denúncia e garantir escuta acolhedora e atuação ágil nos serviços especializados.

6.5 Rede de apoio e serviços

Sabe onde buscar ajuda em caso de violência contra a mulher? (1.003 respostas)
Resposta%
Nunca precisei procurar esse tipo de informação39,2%
Não, não sei onde pedir ajuda36,9%
Sim, sei exatamente onde procurar ajuda12,5%
Sim, mas não conheço todos os serviços11,5%

7. Assédio em espaços públicos

Mais de 93% das entrevistadas relataram algum tipo de assédio em ambientes públicos: 49,3% afirmaram ter sido assediadas frequentemente e 44,2% algumas vezes. O assédio — muitas vezes naturalizado como “brincadeira” ou “elogio” — é uma forma de violência que restringe o direito das mulheres à cidade.

Já sofreu assédio em espaços públicos? (1.003 respostas)
Resposta%
Sim, frequentemente49,3%
Sim, algumas vezes44,2%

8. Transporte e mobilidade

O ônibus é o principal meio de transporte utilizado pelas mulheres (65,3%), seguido pelo carro (48,7%) e pela bicicleta (30,8%). A dependência do transporte público reforça a necessidade de garantir segurança, conforto e eficiência nos deslocamentos urbanos.

Meio de transporte utilizado (1.003 respostas, múltipla escolha)
MeioRespostas%
Ônibus65565,3%
Carro48848,7%
Bicicleta30930,8%
Moto19018,9%
Aplicativos e táxi232,3%

9. Propostas e recomendações

  1. Ampliação e fortalecimento da rede de saúde da mulher com equipes especializadas;
  2. Criação de casas de apoio e acolhimento com funcionamento 24h;
  3. Programas de capacitação e inclusão produtiva com foco em mulheres de baixa renda;
  4. Campanhas de comunicação permanentes sobre os direitos das mulheres e canais de denúncia;
  5. Implantação de patrulhas de proteção à mulher e policiamento comunitário em regiões críticas;
  6. Incentivo à participação das mulheres nos conselhos municipais e espaços de decisão;
  7. Formação continuada de agentes públicos sobre violência de gênero e acolhimento humanizado;
  8. Delegacia da Mulher 24h, com atendimento humanizado;
  9. Maior apoio às mulheres empreendedoras;
  10. Melhor atendimento à saúde da mulher.

10. Considerações finais

A pesquisa apresenta um panorama profundo e realista das vivências femininas na cidade. Os dados revelam demandas urgentes e estruturais que exigem a atenção do poder público para garantir o direito à igualdade, à dignidade, à segurança e à oportunidade para todas as mulheres.

O relato de violência somado à percepção de insegurança — 70,6% evitam sair sozinhas à noite ou já foram ameaçadas nas ruas — demonstra que a cidade ainda não é plenamente segura para suas cidadãs. Com 52,9% das mulheres autodeclaradas negras ou pardas, reforça-se a urgência de políticas públicas com recorte racial e leitura interseccional.

Esta pesquisa é o primeiro passo. A escuta ativa das mulheres deve ser permanente, e suas vozes precisam ser traduzidas em ações concretas, integradas e transformadoras.

Elaboração: Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania — GT PMPM Guarujá. Dados divulgados de forma estatística, consolidada e não identificável.