1. Introdução
A ausência de dados específicos sobre a realidade das mulheres no município do Guarujá representa um desafio significativo para a formulação e execução de políticas públicas eficazes, interseccionais e comprometidas com a equidade de gênero. Diante desse cenário, foi desenvolvida uma pesquisa amostral com 1.003 mulheres residentes no município, com idades a partir de 18 anos, com o objetivo de identificar demandas prioritárias, mapear vulnerabilidades sociais e propor caminhos concretos para o fortalecimento das políticas públicas voltadas às mulheres.
Esta iniciativa surge da necessidade de tornar visíveis as múltiplas faces das desigualdades enfrentadas pelas mulheres do Guarujá, abrangendo aspectos como acesso à saúde, trabalho, renda, mobilidade, violência e percepção de segurança. A pesquisa busca não apenas retratar estatisticamente a situação atual, mas oferecer uma base sólida para ações transformadoras, conectadas com os princípios dos direitos humanos e da justiça de gênero.
2. Metodologia
A coleta de dados foi realizada de forma híbrida — online, por meio de formulário eletrônico, e presencialmente em pontos estratégicos do município. O método amostral visou abranger a diversidade do território, incluindo bairros de diferentes perfis socioeconômicos. As 1.003 participantes responderam a um questionário estruturado com perguntas fechadas e abertas, garantindo tanto a objetividade estatística quanto a coleta de percepções subjetivas e vivências.
A análise foi realizada por meio de leitura estatística das frequências absolutas e relativas, cruzamento de variáveis relevantes e interpretação qualitativa das respostas abertas.
3. Perfil sociodemográfico
A faixa etária mais representativa da amostra concentra-se entre 40 e 60 anos (47,5%), seguida pelas mulheres de 30 a 40 anos (19,2%). A pesquisa contemplou majoritariamente mulheres em idade economicamente ativa, o que é relevante para os temas de trabalho, renda e cuidado com filhos.
Em termos de escolaridade, 58,5% das entrevistadas completaram o ensino médio ou estão cursando o ensino superior. Notavelmente, 7,6% não completaram o ensino fundamental e 6,8% não completaram o ensino médio, o que evidencia a persistência de um recorte educacional desigual no município.
| Faixa etária | % |
|---|---|
| Entre 18 e 21 anos | 17,8% |
| Entre 21 e 30 anos | 11,6% |
| Entre 30 e 40 anos | 19,2% |
| Entre 40 e 50 anos | 23,9% |
| Entre 50 e 60 anos | 23,6% |
| Acima de 60 anos | 3,9% |
3.1 Cobertura territorial
Foram aplicados questionários tanto em regiões centrais quanto em áreas periféricas, buscando captar a pluralidade de experiências vividas pelas mulheres guarujaenses. Entre os bairros alcançados destacam-se:
- Balneário Guarujá
- Jardim Astúrias
- Balneário Mar Casado
- Vila Alice
- Cachoeira
- Balneário Praia do Pernambuco
- Complexo Industrial Naval de Guarujá
- Vila Júlia
- Santa Rosa
- Perequê
- Morrinhos
- Prainha Branca
3.2 Cor/raça
52,9% das mulheres entrevistadas se autodeclararam negras ou pardas, o que revela a predominância de mulheres negras no território e destaca a urgência de políticas públicas com recorte racial. Este dado reforça a importância de incluir o recorte racial na formulação das políticas públicas, promovendo equidade e combate ao racismo institucional.
| Cor/raça | % |
|---|---|
| Parda | 46,8% |
| Branca | 36,4% |
| Negra | 16,5% |
| Indígena | 0% |
| Amarela | 0% |
3.3 Composição familiar — quantidade de filhos
27,1% das entrevistadas possuem um filho, 28,3% têm dois e 12,7% têm três — juntas, 68,1% da amostra. Outras 23,8% declararam não ter filhos. Mulheres com maior número de filhos podem enfrentar mais dificuldades para acessar o mercado de trabalho, concluir a formação educacional ou buscar atendimento de saúde, o que reforça a necessidade de políticas de cuidado.
| Filhos | Respostas | % |
|---|---|---|
| 0 | 239 | 23,8% |
| 1 | 272 | 27,1% |
| 2 | 284 | 28,3% |
| 3 | 127 | 12,7% |
| 4 | 46 | 4,6% |
| 5 | 15 | 1,5% |
| 6 | 10 | 1,0% |
| 7 | 6 | 0,6% |
| 8 ou mais | 4 | 0,4% |
4. Trabalho e renda
A análise da situação profissional revela uma realidade de instabilidade laboral: 33,8% das mulheres estão desempregadas. A precariedade nas relações de trabalho afeta diretamente o acesso a direitos sociais, à saúde, à moradia e à educação.
| Situação | % |
|---|---|
| Desempregada | 33,8% |
| Funcionária pública | 19,3% |
| Aposentada | 16,8% |
| Empreendedora/empresária (com CNPJ) | 16,5% |
| Estudante | 15,0% |
| Trabalho informal ou autônomo | 11,5% |
| Trabalho formal (CLT) | 9,6% |
| Faixa de renda | % |
|---|---|
| Abaixo de 1 salário mínimo | 14,4% |
| Entre 1 e 2 salários mínimos | 15,0% |
| Entre 2 e 3 salários mínimos | 15,5% |
| Entre 3 e 4 salários mínimos | 12,9% |
| Entre 4 e 6 salários mínimos | 16,8% |
| Acima de 6 salários mínimos | 25,5% |
Esse cenário aponta para a importância de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva feminina, com incentivo ao empreendedorismo sustentável, capacitação profissional e formalização do trabalho autônomo.
5. Saúde da mulher
Mais da metade das entrevistadas (55,1%) utiliza o SUS como forma de acesso à saúde, enquanto 43,7% afirmam ter convênio. Entretanto, 38,9% relatam dificuldade para marcar consultas pelo SUS.
| Resposta | % |
|---|---|
| Não, tenho dificuldade para conseguir | 38,9% |
| Sim, consigo com facilidade | 25,7% |
| Sim, mas demora muito tempo | 16,2% |
| Nunca tentei marcar pelo SUS | 15,0% |
| Resposta | % |
|---|---|
| Sim, mas demora muito para conseguir marcar | 47,1% |
| Sim, sem dificuldades | 32,9% |
| Não, porque não consigo agendamento | 13,4% |
Observou-se que 60,5% possuem dificuldade em realizar exames preventivos regularmente. Quanto ao atendimento psicológico pelo SUS, 72% relataram demora e 13,6% não conseguiram acesso mesmo após tentativa, evidenciando déficit grave na oferta de serviços de saúde mental.
5.1 Conhecimento sobre os serviços de saúde para mulheres
| Resposta | % |
|---|---|
| Não, tenho pouca informação sobre isso | 44,1% |
| Sim, mas não sei como acessar todos eles | 21,2% |
| Não sei quais serviços existem para mulheres | 17,7% |
| Sim, conheço bem os serviços disponíveis | 16,9% |
Esses números indicam falha na comunicação institucional e na difusão de informações, afetando sobretudo as mulheres em maior vulnerabilidade social, com baixa escolaridade ou sem acesso contínuo à internet.
6. Violência de gênero e segurança
30,2% das mulheres afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência e 66,8% relataram nunca ter sofrido. Entre os tipos mais comuns destacam-se a violência psicológica (25,4%), física (14,5%) e moral (11,5%).
| Tipo | Respostas | % |
|---|---|---|
| Psicológica (ameaças, humilhação, manipulação) | 255 | 25,4% |
| Física (agressões, empurrões, socos) | 145 | 14,5% |
| Moral (difamação, calúnia, injúria) | 115 | 11,5% |
| Sexual (estupro, assédio, coerção sexual) | 98 | 9,8% |
| Patrimonial (destruição de bens, controle financeiro) | 61 | 6,1% |
| Não se aplica | 636 | 63,4% |
6.1 Percepção de segurança no bairro
70,6% das mulheres evitam sair sozinhas à noite ou já foram abordadas ou ameaçadas nas ruas — um medo constante que limita a liberdade de ir e vir e interfere no acesso à educação, ao lazer, ao trabalho e à participação social.
| Resposta | % |
|---|---|
| Não, já fui abordada ou ameaçada na rua | 58,2% |
| Não, evito sair sozinha à noite | 20,8% |
| Depende do local e do horário | 12,4% |
| Sim, me sinto segura | 8,6% |
6.2 Conhecimento da Lei Maria da Penha
| Resposta | % |
|---|---|
| Sim, mas tenho poucas informações | 45,0% |
| Sim, conheço bem a lei e seus mecanismos | 42,4% |
| Não conheço essa lei | 10,1% |
O dado demonstra a necessidade de campanhas educativas contínuas e acessíveis, especialmente nos bairros mais vulneráveis, escolas, igrejas e unidades de saúde.
6.3 Percepção comunitária da violência
64,6% das entrevistadas afirmaram conhecer ao menos uma mulher que já sofreu violência ou foi vítima de feminicídio, o que reforça a dimensão coletiva do problema.
| Resposta | % |
|---|---|
| Não conheço nenhum caso | 35,4% |
| Sim, mas apenas por notícias ou redes sociais | 25,6% |
| Sim, uma pessoa próxima (familiar, amiga, vizinha) | 23,0% |
| Sim, conheço casos na minha comunidade | 16,0% |
6.4 Busca por ajuda após situações de violência
| Resposta | % |
|---|---|
| Não, por medo de represálias | 70,4% |
| Sim, mas não tive o suporte adequado | 8,8% |
| Sim, fiz denúncia e recebi o apoio necessário | 8,0% |
Esse silêncio não é fruto da omissão, mas da insegurança institucional, da ausência de redes efetivas de proteção e da perpetuação de uma cultura que responsabiliza a vítima. É urgente fortalecer os canais de denúncia e garantir escuta acolhedora e atuação ágil nos serviços especializados.
6.5 Rede de apoio e serviços
| Resposta | % |
|---|---|
| Nunca precisei procurar esse tipo de informação | 39,2% |
| Não, não sei onde pedir ajuda | 36,9% |
| Sim, sei exatamente onde procurar ajuda | 12,5% |
| Sim, mas não conheço todos os serviços | 11,5% |
7. Assédio em espaços públicos
Mais de 93% das entrevistadas relataram algum tipo de assédio em ambientes públicos: 49,3% afirmaram ter sido assediadas frequentemente e 44,2% algumas vezes. O assédio — muitas vezes naturalizado como “brincadeira” ou “elogio” — é uma forma de violência que restringe o direito das mulheres à cidade.
| Resposta | % |
|---|---|
| Sim, frequentemente | 49,3% |
| Sim, algumas vezes | 44,2% |
8. Transporte e mobilidade
O ônibus é o principal meio de transporte utilizado pelas mulheres (65,3%), seguido pelo carro (48,7%) e pela bicicleta (30,8%). A dependência do transporte público reforça a necessidade de garantir segurança, conforto e eficiência nos deslocamentos urbanos.
| Meio | Respostas | % |
|---|---|---|
| Ônibus | 655 | 65,3% |
| Carro | 488 | 48,7% |
| Bicicleta | 309 | 30,8% |
| Moto | 190 | 18,9% |
| Aplicativos e táxi | 23 | 2,3% |
9. Propostas e recomendações
- Ampliação e fortalecimento da rede de saúde da mulher com equipes especializadas;
- Criação de casas de apoio e acolhimento com funcionamento 24h;
- Programas de capacitação e inclusão produtiva com foco em mulheres de baixa renda;
- Campanhas de comunicação permanentes sobre os direitos das mulheres e canais de denúncia;
- Implantação de patrulhas de proteção à mulher e policiamento comunitário em regiões críticas;
- Incentivo à participação das mulheres nos conselhos municipais e espaços de decisão;
- Formação continuada de agentes públicos sobre violência de gênero e acolhimento humanizado;
- Delegacia da Mulher 24h, com atendimento humanizado;
- Maior apoio às mulheres empreendedoras;
- Melhor atendimento à saúde da mulher.
10. Considerações finais
A pesquisa apresenta um panorama profundo e realista das vivências femininas na cidade. Os dados revelam demandas urgentes e estruturais que exigem a atenção do poder público para garantir o direito à igualdade, à dignidade, à segurança e à oportunidade para todas as mulheres.
O relato de violência somado à percepção de insegurança — 70,6% evitam sair sozinhas à noite ou já foram ameaçadas nas ruas — demonstra que a cidade ainda não é plenamente segura para suas cidadãs. Com 52,9% das mulheres autodeclaradas negras ou pardas, reforça-se a urgência de políticas públicas com recorte racial e leitura interseccional.
Esta pesquisa é o primeiro passo. A escuta ativa das mulheres deve ser permanente, e suas vozes precisam ser traduzidas em ações concretas, integradas e transformadoras.
Elaboração: Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania — GT PMPM Guarujá. Dados divulgados de forma estatística, consolidada e não identificável.
